Dia 23 de Setembro de 2010. Um dia que espero que nada me roube da memória (longe, Alzheimer…). O Francisco nasceu e eu fiz-me então uma Mulher diferente.
O que senti quando o vi a primeira vez? Quase inenarrável… Não sei se era das “drogas”, mas não chorei (digo isto porque sou da lágrima fácil…). Os olhos Dele fixaram-me. Vinha calado, sereno… Aquele olho escuro mirando-me… Parecia perscrutar-me. Tive uma sensação de Paz indescritível, e ao mesmo tempo, a partir daquele instante, compreendi perfeitamente a minha Mãe e todas as suas preocupações comigo.
Não pude pegar no Francisco ao colo, mas sentir o rosto Dele colado no meu por segundos matou momentaneamente a minha fome desesperada de Mãe.
Contei todos os minutos até poder tê-lo nos meus braços. Nunca me senti tão impotente, tão dependente… queria estar com Ele!, vê-lo, cheirá-lo, tocar-lhe!..., queria lá saber de mim. Por vezes acho que a minha cara deve ser mesmo muito expressiva, pois houve uma alma caridosa que tudo fez para encurtar o tempo do meu recobro.
Ele vinha ao colo do Pai. Senti-me tão felizarda por aquela “picture” fazer parte do meu Mundo!... Pude finalmente aconchegá-lo no meu peito, sentir o calor dele, reconhecê-lo. Não consigo traduzir muito melhor o que se sente, pois é muito forte o registo…
No dia em que o Francisco veio ao Mundo deixei de ser “sozinha”. Como li algures por aí, a partir de então o meu Coração começou a bater fora do meu corpo.
Há factos irreversíveis na Vida, e que só descobrimos que assim o eram mais tarde. Outros são reversíveis, mas depois, por alguma razão, tornam-se irreversíveis. E também há o contrário: factos que à partida parecem irreversíveis e que depois, bem vistas as coisas, não o são. Ser Mãe não cabe em nenhuma destas situações. Ter um Filho é irreversível, sabemo-lo praticamente desde o primeiro instante em que sabemos da sua existência, e isso torna-se especialmente cristalino no momento em que o vemos pela primeira vez. Somos os mesmos mas não somos mais os mesmos.
